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22 de dez. de 2009

What a Wonderful World


"Nossa, o ano já acabou?" Quantas vezes ouvi essa frase, em todo ano, durante toda a minha vida...É certo que nesta época as pessoas falam de renovações, embora não consigam a metade delas. É certo que se fala em solidariedade, amor, fraternidade e todas as "dades" dessa novidade que é um ano que chega.

Apesar da minha máscara de "coração gelado", dá vontade de chorar ao ver as criancinhas cantarem "então é natal...". Mas, mais vontade de chorar me dá ao ver outras cenas.

Há umas semanas eu passava pelo Cais do Porto "revitalizado",às 19h, e vi uma família que mora ali -dentre tantas outras. A mãe fazia sua higiene com um baldinho e uma água que sabe lá Deus de onde veio, o pai esperava , o filho colocava a calça e já tinha o cabelo penteado. Mais à frente, uns meninos correndo pra lá e pra cá, com uns shorts enormes (cavalo dado não se olha os dentes), brincando quase que despercebidos pelas pessoas, a não ser por aquelas que tinham medo de serem assaltadas por eles. Essa semana, na Pç. Mauá,pela manhã, vi um outro menino, com roupas grandes sujas, pequeno, lindo, com uma garrafinha de refrigerante, sei lá, que deveria ser o seu café. Ele cantava sozinho e batucava na garrafa.

Sempre quando falo algo do tipo para outras pessoas , ouço:"mas isso é normal no centro da cidade". É, eu sei. Há quase sete anos passo por estes lugares, além de outros do Rio e, "apesar da normalidade", não deixo de sonhar com outra norma, com outro padrão.

Enlouquecidamente me pergunto: o que posso fazer para mudar? O que posso fazer, eu também te pergunto. Falar, falar ou escrever não resolve. Não há mais sensibilidade com o que é normal, banal, cotidiano. Há lágrimas para o filho que canta com a turminha o "Então é natal...", mas não há para aquelas crianças que sorriem, brincam e cantam, sujas, com fome e até drogadas.

Não posso me conformar, tomar a mesma forma desse mundo que padronizou a pobreza, que manda fuzilar meninos de rua que roubam no sinal, mas que falam que seus filhos são doentes quando sustentam o crime organizado comprando drogas. Eu sonho em um dia olhar a janela do ônibus e não ver famílias nas ruas, meninos drogados me pedindo dinheiro, crianças vendendo balas descalças,homens sujos sentados esperando a vida acabar. Eu sonho com brancos sem medo de negros no meio das ruas; educação e emprego para todos; vagas em hospitais mesmo para aqueles que não conhecem um funcionário da saúde; eu sonho com pais que passam mais tempo com os filhos e que deem importância às suas perguntas e histórias; eu sonho com meninos de todas as classes que não precisam encontrar nas drogas o seu refúgio. Eu sonho com aquele mundo cantado por Louis Armstrong e que meu pai colocava toda virada de ano quando eu era criança. Eu sonho com esse mundo maravilhoso!

12 de jun. de 2009

Garapa ou cola, dá no mesmo


















Gosto do cinema brasileiro, não nego, não escondo e vou assistir. Em função disso, fui ver Garapa, claro! Lamentavelmente saiu de cartaz, mas José Padilha, neste filme, manteve a sensibilidade com que olha para as realidades veladas do nosso Brasil. Realidades que gritam, mas que o poder público finge não ouvir.

Já esperava sair reflexiva da sala de cinema. Já sabia que teria assunto para partilhar com vocês, aqui no blog. Apesar de gostar de cinema, não entendo muito, porém, acho que posso falar de uma estética interessante que José Padilha usou colocando o filme em preto e branco e buscando não interferir na realidade que queria mostrar. Contudo, achei que o filme em preto e branco não mostrou alguns detalhes que seriam importantes. Por exemplo, havia muitas moscas em uma criança e, quando a câmera chegou bem perto, parecia que a perninha do bebê estava com feridas, por isso, tantas moscas. Outro detalhe que não aparece é a cor da Garapa, certamente mostraria o quão rala é a única opção que aquelas crianças tem para se alimentar.

No entanto,outros detalhes também importantes estão martelando na minha cabeça. Não paro de ouvir a voz de uma das crianças falando: "mãe, me dá a garapinha". Gente, ele pedia como se fosse o achocolatado que, os que podem tomar, tomam. E como se fosse a refeição dos intervalos e não a refeição ÚNICA e principal deles.

Saí do cinema, numa sala em Botafogo (aliás, o único lugar em esses tipos de filme são exibidos), olhei para o Rio de Janeiro e me lembrei das crianças que temos aqui. Lembrei-me das que ficam embaixo dos viadutos, as que andam por aí nas nossas ruas, as que tomam um outro tipo de garapa, aquela que vicia, que deixa doidão, mas faz matar a fome, passar o frio e esquecer que são o incomodo dos nossos olhos, diante da beleza de nossa cidade: a cola.

Saio do cinema e me pergunto: qual é a diferença? Qual é a diferença entre as crianças do nordeste e as crianças que aqui vejo? Miséria é miséria, fome é fome, aqui, no nordeste, na África!

E a tristeza que me toma é a mesma. E graças a Deus que ainda me toma a tristeza, pois, o dia que eu nada sentir é porque também me corrompi e coloquei esse problema à margem das minhas possibilidades de fazer algo e na indiferença para os meus sentimentos.

7 de abr. de 2009

Por gentileza, obrigada!



Cada um no seu quadrado, como fala a famosa música. Esse deveria ser o curso normal da história, no que diz respeito à educação. Os pais ficam com a responsabilidade da educação que vem de casa, aquela primária, sabem? Na minha época, e olha que nem foi há tanto tempo, quando eu ganhava alguma coisa,mamãe dizia: "Como se fala minha filha?"; era tão lógico o respeito aos meus pais e consequentemente aos mais velhos que, quando eu sacudia as pernas de pirraça, mamãe só olhava; quando eu fazia algo errado, papai só olhava. Não fiquei traumatizada, não quis cortar os pulsos e nem me enfiei nas drogas. Com tudo isso, restava, pra escola, a educação formal, regular, o "beabá" mesmo.

Mas o que temos hoje? Uma psicologia e pedagogia sempre a favor das crianças, mesmo quando essas estão erradas. Nada se pode falar pro filho e nada se pode fazer com o aluno. O ensino vai mal, eu sei, há vários mecanismos ruins que não estão ligados à educação que o indivíduo traz de casa, é certo. Porém, qual o profissional que não se corrompe e se entrega ao desânimo diante do cenário que se instaurou nas escolas?

Falo das públicas e das prarticulares também. Vários colegas que acreditavam na educação como a base de tudo, se entregaram, por amor, ao magistério, e, com menos de um mês de trabalho, dando aula pra essa geração aprendiz de terrorista, já entraram em desespero.

Não tem sido raro ouvir dos professores que crianças da quinta série se agridem fisicamente, por causa de um lápis. E é um tal de "vai tomar naquele lugar" para lá, "vai se f..." para cá, além de chutes e pontapés nos professores. O melhor, pasmem, nada pode ser feito da parte dos nossos mestres! Eles não podem colocar pra fora de sala, não podem suspender, não podem deixar de castigo, além da hora, não podem nenhum mecanismo de punição, NENHUM!!!

Há hoje um amparo ao desrespeito, à falta de educação, à violência e um desamparo aos nossos professores, a fim de que a mínima ordem seja reestabelecida e as salas de aulas voltem a ser um local de aprendizado e troca.

Lembrei de uma coisa que uma colega de trabalho me contou e até me deu vontade de rir. A troca entre professores e alunos tem sido de outro jeito. Essa colega disse que xingou esses dias alguém do seu convívio e, quando se deu conta, disse: "Estou me tornando um monstro!". Ou seja, o meio está influenciando tanto a pobre coitada que ela está adquirindo os hábitos dos seu educados alunos.

Nem entrarei no mérito deles chegarem na quinta série, alguns com 17 anos, e não saberem ler ainda...Prefiro nem falar disso, porque me dá um embrulho no estômago tal situação.

Como mamãe me ensinou, dá licença, por favor, por hoje é só e muito obrigada pela atenção até o final do texto. Ah, volte sempre!

27 de ago. de 2008

Coroa de oliveira

As Olimpíadas acabaram e os olhares para China diminuem. A imprensa mundial se retirou e ficam alguns correspondentes, pelo lado oriental , falando apenas sobre o crescimento econômico deste grande emergente.

Tudo bem que questões do comunismo ditatorial são deixadas de lado, a não ser quando este impossibilita alguma abertura econômica. No entanto, pouco se fala da obrigatoriedade do baixo número de filhos e de famílias que não registram as crianças não primogênitas (lá só se pode ter UM filho por casal); não se fala da impossibilidade de expressar sua crença (só agora com a questão do Tibet, mas há tempos cristãos são perseguidos); pouco se fala da exploração de mão de obra e do que é feito com as crianças para que elas alcancem resultados como aqueles visto nos Jogos Olímpicos.

Pelo menos tivemos a oportunidade de conhecer um pouco da realidade desse povo tão rico culturalmente, mesmo em meio às adversidades, ainda que somente neste período de "união mundial". Opa, falando assim a China me lembrou um país conhecido da gente. Cultura rica, direitos cerceados, trabalho escravo, filhos sendo descartados... É isso mesmo, é a terra do futebol! Está bem, mais ou menos terra do futebol (o feminino ainda nos salva, pelo menos).

Embora conheça da China o que foi passado neste curto período e um pouquinho mais, através de algumas aulas de geografia ou curiosidades repentinas, poderia fazer render um texto inteiro sobre esse país. Mas, volto a falar de Brasil e suas semelhanças com a China.

Quando falamos de ditadura, respiramos aliviados, afinal, estamos em 2008 e não mais em 1964. Ah que bom seria se assim fosse. De Brasil posso falar com mais propriedade de Rio de Janeiro, aqui vivemos num país democrático e não seria diferente na nossa cidade. Temos liberdade de expressão, podemos escolher nossos representantes, temos direito de ir e vir, de usar a roupa que quisermos etc etc etc. Temos mesmo?

Engraçado, enquanto ia escrevendo isso, ia me lembrando de um monte de exemplos que contradizem o que acabei de afirmar. Mais exemplos até dos que me motivaram a escrever este texto. Não seria tão incoerente morando tão perto de favelas (tudo bem, quem hoje, no Rio, não mora perto de favelas?) e me relacionando com moradores das mesmas (amigos, pessoas no trabalho e tudo mais). Há pouco tempo uma comunidade aqui foi invadida e, como os moradores locais já sabem, hora para voltar, hora para sair, ora se pode voltar (muitos dormem nas casas de amigos, porque não podem retornar para as suas) e obrigatoriamente se tem que sair, afinal, precisa-se trabalhar. Nestes dias tumultuados, um amigo de lá me disse: fui trabalhar às sete da manhã, em meio ao tiroteio. Olha que tem quem reclame que sai para trabalhar em meio a chuva...

Outro me disse: "Ih, se a favela for tomada, novas leis imperarão por lá". Leis essas que são cumpridas de maneira exemplar, lá não existe essa história de que brasileiros transgridem as leis, não há essa cultura de "será que essa lei pega?", ali as leis foram feitas para serem cumpridas, obedecidas e punidos os que não as obedecem. E olha que ninguém se dar o trabalho de escrevê-las em milhões de códigos civis e penais, o código utilizado é a fala mesmo,o antigo e eficiente método "boca à boca". Democracia?

Além disso, esses exemplos de democracia me fizeram lembrar um acontecimento recente, do qual saiu muita lama com cimento. E que Deus provindencie as mudanças a partir do social que a imprensa fez por lá. Primeiro, os que mais precisavam dar exemplos de cumpridores da lei se renderam às leis não descritas em código nenhum. E, com as cabeças acimentadas, brincaram de entregar humanos à facção rival. Depois disso, que foi só a ponta do "iceberg da obra", vieram à tona as ações coronelistas para a escolha dos candidatos à cargos eleitorais, deste ano de 2008. Democracia?

Liberdade de roupa e de imprensa, nem se fala. Lembram da cor de roupa a ser usada no início do piscinão de Ramos? E dos "Tins Lopes" que existem? Democracia?

E, para encerrar as comparações com o país campeão olímpico, termino com o treino das crianças. Na China, os pais deixam os filhos, desde pequenos, em concentrações esportivas. Estes têm treinos duríssimos, nos quais ,quando há erros, os pequenos são castigados e as crianças são treinadas para a perfeição. Aqui, os pais são obrigados a deixar seus filhos em concentrações que mais parecem campos de guerra, em escolas que não têm aulas e nas ruas que têm muita coisa para ensinar. Nelas, eles aprendem a manusear armas, a ser malandros, a se comunicarem, a ser aviões e até "foguetes". Conhecem as leis locais como ninguém e sabem bem qual será o pódio. A diferença é que a medalha tem calibre e a coroa não é de oliveira, mas de flores, se assim o dinheiro dos pais permitir. E quanto a glória, essa será a de Deus! É, democracia?